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Opinião

Imbecis e vagabundos

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Jovens seguram cartazes pedindo por mais vacinas na Praça Senador José Bento, em Pouso Alegre | Imagem: R24/arquivo

Dia 29 de maio, milhões de brasileiros ocuparam as ruas do país para demonstrar o seu repúdio ao governo Bolsonaro. As manifestações foram coordenadas e convocadas por movimentos sociais e sindicatos e contaram com o apoio de ativistas de todas as áreas e com a presença espontânea de um grande contingente de pessoas indignadas com os rumos do país. Os atos foram organizados em função dos protocolos e medidas de segurança sanitária divulgados pelos médicos populares, com uso de máscara e distanciamento mínimo entre os manifestantes obrigatórios. 

Todos os envolvidos no 29 de maio, desde o anúncio das primeiras medidas de contenção da alta transmissibilidade do vírus, sempre apoiaram o distanciamento social — e apoiaram também as medidas que viabilizariam o distanciamento, como o auxílio emergencial aos trabalhadores, conquistado à duras penas pela oposição, e o apoio financeiro às empresas. 

A esquerda sempre reivindicou, sobretudo, uma ampla campanha de vacinação, agora comprovadamente negligenciada pelo governo federal à medida que a CPI da Covid no Senado Federal vai revelando os bastidores da gestão da pandemia. A contradição entre convocar manifestações e o apoio ao distanciamento em alguma medida existe, portanto. 

Mas não nos enganemos: muito longe da falsa equivalência usada como argumento para desqualificar o 29 de maio por alguns de seus críticos, uns bastante virulentos, outros tantos apenas dissimulados, o que trouxe os brasileiros às ruas dessa vez é muito diferente do que levou os bolsonaristas. A “aglomeração de pessoas” não é o suficiente para nivelar quem foi às ruas nos dois casos, nem tampouco se trata de uma contradição insolúvel, que não possa ser superada pelos fatos, pelo que concretamente justifica os atos. 

Ao contrário dos atos em apoio ao governo federal, que pareciam celebrar as consequências nefastas da pandemia e reivindicavam, além de objetivos antidemocráticos como a instauração de uma ditadura, a radicalização da política criminosa de Bolsonaro de exposição da população ao risco de morte por covid, no sábado, os manifestantes, cientes dos riscos que corriam e tomando todas as cautelas para minimizá-los, pediam vacinação, reclamavam da carestia, do desemprego, da miséria, se queixavam de destruição do Estado em todos os níveis. 

As ruas transmitiram grave preocupação com a catástrofe que estamos atravessando, preocupação suficiente para que os manifestantes optassem por sair de casa para exigir o fim do governo apesar dos riscos. E também, como visto em centenas de cartazes pelo país, o 29 de maio acabou se tornando pretexto para milhares de brasileiros pudessem exprimir seu luto pela perda de entes queridos, amigos como uma perda coletiva. Cada vítima da pandemia é uma perda para todos nós.

Em Pouso Alegre também tivemos manifestação, como parte desse grande ato nacional. Estudantes, professores, sindicalistas…muita gente resolveu sair de casa para protestar. No entanto, o fato de as pessoas expressarem suas discordâncias em relação ao governo municipal causou certo estranhamento em lideranças políticas locais. De tão acostumadas ao pensamento único que hoje orienta o debate político em Pouso Alegre mesmo nas instâncias que deveriam garantir a pluralidade de vozes como a Câmara Municipal, o vereador Bruno Dias, cioso do governo que defende, ao tentar afastar a associação do governo municipal ao governo federal, do alto de sua posição institucional de chefe do Poder Legislativo e gozando de imunidade parlamentar, atacou de maneira grosseira estudantes e manifestantes. Quem ousou pensar diferente do bloco de poder que comanda Pouso Alegre foi rebaixado a “imbecil” e “vagabundo”.  

Como podemos constatar com facilidade, talvez não embarcar em delírios anticientíficos como a prescrição de hidroxicloroquina, não seja suficiente para se afastar do bolsonarismo. Bolsonaro já se referiu a quem discorda dele com os mesmíssimos termos. As ações, o modo de proceder, falaram mais alto que a simples negação, que o recurso de isolar um aspecto caricato (e letal) do bolsonarismo para tirar a atenção do que é nuclear na ética autoritária que preside, isto é, à rejeição violenta do contraditório. 

Talvez se o vereador tivesse se dado ao trabalho de conversar, mesmo que apenas em razão de seu papel institucional de presidente do legislativo, com quem está descontente, entendesse melhor o que os manifestantes queriam dizer. Talvez se o vereador concedesse a palavra na Câmara a quem pensa diferente dele, pudesse se distanciar mais do bolsonarismo como defendeu em sua fala no plenário da Câmara Municipal.


Sobre a autora: Lívia Macedo, mestre em Ciência Política pela UFMG. Professora de Sociologia na Escola Vinícius Meyer.

Os artigos publicados em ‘Opinião’ não refletem, necessariamente, o ponto de vista do Rede Moinho 24.

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